Opioides em Cuidados Paliativos
O que você precisa saber?
A dor é um dos maiores desafios enfrentados por pacientes que necessitam de cuidados paliativos, ou seja, aqueles que vivenciam sofrimento grave relacionado à saúde (Lancet, 2017). Mas você sabe o que significa “sofrimento grave”?
Por definição, “o sofrimento é classificado como grave quando não pode ser aliviado sem intervenção médica e quando compromete o funcionamento físico, social-emocional ou espiritual” (Knaul et al., 2018).
Mesmo com recursos eficazes, como os opióides, especialmente a morfina , muitos pacientes no Brasil vivem e morrem em sofrimento desnecessário. Neste artigo, vamos esclarecer mitos, apresentar dados sobre o consumo de opióides e discutir caminhos para melhorar o controle da dor no país.
O Papel da dor nos cuidados paliativos
A dor moderada a grave está entre os principais sintomas enfrentados por pacientes com condições graves de saúde. Mas o que caracteriza uma condição grave? Segundo Kelley e Bollens-Lund (2018), são aquelas que apresentam alto risco de mortalidade, afetam negativamente a função diária ou a qualidade de vida do paciente, ou ainda sobrecarregam excessivamente seus cuidadores.
Assim, a dor é apenas uma das formas de sofrimento que esses pacientes podem experimentar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 80% das pessoas com condições graves enfrentam dor moderada a intensa, impactando diretamente a qualidade de vida, o sono, o humor, a alimentação e as relações interpessoais, tanto do paciente quanto de sua família.
Opióides: O que são e como funcionam
Opióides como morfina, metadona, oxicodona e fentanil atuam diretamente no sistema nervoso, proporcionando alívio da dor. Embora exista receio quanto à dependência, em contextos médicos e com acompanhamento adequado, o risco é baixo. Efeitos adversos, como constipação e náuseas, são possíveis, mas são manejáveis com boas práticas clínicas.
Segurança e eficiência dos opióides
A OMS alerta sobre a falta de morfina em muitas partes do mundo. Apesar de estar na lista de medicamentos essenciais da OMS desde 1977, menos de 10% do consumo global é destinado a países de baixa e média renda, onde a necessidade é maior. Nos países de baixa renda, o consumo chega a ser 63 vezes menor que em nações ricas, deixando milhões de pessoas em sofrimento desassistido. O relatório “Deixados para Trás com Dor” destaca que muitas dessas dores poderiam ser prevenidas se houvesse acesso adequado ao medicamento. Leia aqui.
Panorama Brasileiro: dados de mercado e setor
Consumo na população
Uma pesquisa da Unifesp com base no Levantamento Nacional de Álcool e Drogas revelou que o consumo de opioides na população acima de 14 anos cresceu de 0,8% em 2012 para 7,6% em 2023. Note-se que esse dado inclui usos terapêuticos e não, necessariamente, ligados a cuidados paliativos. Acesse o relatório completo aqui:
Uso via SUS
Dados via Lei de Acesso à Informação (LAI) indicam que, em 2022, 33.278 pacientes no SUS utilizaram opioides para dor crônica. Desses, 17.101 fizeram uso de morfina, 9.397 de codeína e 6.780 de metadona. Os dados completos estão aqui . Vale a pena conferir!
Subutilização crônica
Em termos per capita, o Brasil consome aproximadamente 7,8 mg de opioides por pessoa ao ano, enquanto a quantidade ideal seria cerca de 192,9 mg, ou seja, quase 25 vezes mais. Saiba mais aqui:
Crescimento regional
Na América do Sul, o consumo de opioides analgésicos quase triplicou em duas décadas. O Brasil aparece como o quinto maior consumidor da região em 2021, com 704 S-DDDpm (doses diárias definidas por milhão de habitantes). Saiba mais aqui.
Barreiras do uso adequado no Brasil
Além das estatísticas, enfrentamos barreiras estruturais:
- Falta de capacitação clínica e receio de prescrição;
- Burocracia com receituários especiais exigidos pelas vigilâncias sanitárias;
- Estigma cultural, associando morfina à morte;
- Distribuição desigual, com maior acesso nos grandes centros.
Esses fatores levam ao subtratamento da dor, mesmo em pacientes que poderiam se beneficiar claramente desses fármacos.
Estratégias para Melhorar o Manejo da Dor
Educação e capacitação
Capacitar profissionais médicos, enfermeiros, psicólogos para o manejo correto de opióides é essencial. Falar com clareza sobre equilíbrio entre alívio e riscos estabelece confiança clínica e familiar.
Políticas públicas e desburocratização
Necessário revisar normas como receituários especiais, expandir acesso no SUS e fortalecer centros de referência.
Sensibilização da sociedade
Campanhas bem estruturadas podem desconstruir estigmas e humanizar o uso de opioides como cuidado, não desespero.
Presença de Instituições como o Instituto Paliar
Instituições de ensino e referência devem atuar na disseminação de conhecimento técnico, prático e empático.
O uso correto de opióides em cuidados paliativos no Brasil representa um direito à dignidade e alívio. Embora seu uso esteja crescendo, ainda estamos muito aquém do necessário, com subutilização persistente mesmo diante de sofrimento evitável. Derrubar mitos, formar profissionais e garantir acesso equitativo é imperativo. O Instituto Paliar tem papel fundamental nesse movimento de conscientização e formação.
O Instituto Paliar se coloca como espaço de aprendizado e diálogo sobre o uso seguro de opioides e sobre a importância do cuidado centrado no alívio do sofrimento. Ao derrubarmos mitos, abrimos caminho para uma prática mais humana, ética e compassiva.